Existência

Vídeo de pintura/Instalação Porto Alegre - Brasil

Historicamente a arte foi definida em relação a procedimentos que buscam dar corpo a questões menos palpáveis, de ordem mental. Inquietações metafísicas e conceituais são depuradas e colocadas no mundo via embate com a fisicalidade do suporte e do uso de materiais e técnicas, gerando por fim determinadas peças consideradas artísticas. Se no período clássico a tela era um suporte neutro para a apresentação do tema, no moderno vimos movimentos feitos pelos artistas que assumiram a planaridade da pintura, discutindo seus elementos constitutivos, para depois os desconstruir.

Historicamente a arte foi definida em relação a procedimentos que buscam dar corpo a questões menos palpáveis, de ordem mental. Inquietações metafísicas e conceituais são depuradas e colocadas no mundo via embate com a fisicalidade do suporte e do uso de materiais e técnicas, gerando por fim determinadas peças consideradas artísticas. Se no período clássico a tela era um suporte neutro para a apresentação do tema, no moderno vimos movimentos feitos pelos artistas que assumiram a planaridade da pintura, discutindo seus elementos constitutivos, para depois os desconstruir. Alguns artistas, para tanto, passam a apresentar a própria superfície da tela e os materiais pictóricos como obra. Lúcio Fontana pode ser citado com um exemplo desse tipo de atitude. A tela deixa de ser suporte e passa a ser o próprio assunto. Malevich antes disso, dialoga com esse questionamento filosoficamente através do suprematismo e seu clássico branco sobre branco. Alguns movimentos abstratos emergem nesse sentido. No contemporâneo surgem propostas ousadas que enfatizam o processo no âmbito da vivência a partir da desmaterialização do objeto e da arte conceitual. A ação artística passa a ter mais importância do que seu resultado material.

O intuitivo processo de Cristie Boff trata desses questionamentos quando busca transcender a própria obra. A artista está interessada em extrapolar limites em sua produção. Além do simbolismo diretamente ligado à ideia de transcendência, o faz quando opta pela linha do horizonte que extravasa o formato tela e sugere uma continuidade no espaço, no mundo. Cristie pinta infinitamente o infinito. A ausência de moldura é evidência dessa vontade de expansão. Em seu desdobramento em peças com formato de mãos, ainda é a libertação do objeto que está em jogo. Os materiais usados – desde as fôrmas, o material líquido que as preenche, e seu resultado – são frágeis e efêmeros. A artista escapa da forma fixa. As mãos criadas por ela atuam no mundo através do corpo dos outros. A transcendência da obra é o elemento que paradoxalmente a efetiva. Ela acontece através do corpo do público e ganha vida em performances por ele elaboradas. Foi preciso deixar a rigidez da matéria para a arte se concretizar.

"O intuitivo processo de Cristie Boff trata desses questionamentos quando busca transcender a própria obra."

Rochele Zandavalli, curadora, profª. e mestre em poéticas visuais pelo PPGAV-IA-UFRGS